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Movimento em Defesa da Vida da Arquidiocese do Rio de Janeiro
Documentos - Células-tronco


Carta de 57 cientistas ao Senador John Kerry, dos Estados Unidos



27 de outubro de 2004

Tradução de Herbert Praxedes(*)

Prezado Senador Kerry

Recentemente o senhor colocou como peça central de sua campanha a promoção da pesquisa de células-tronco embrionárias, inclusive a clonagem de embriões humanos para fins de pesquisa. Disse ainda que fará de tal pesquisa a prioridade máxima para o governo, academia e medicina (Los Angeles Times, 10/17/04). O senhor mesmo justificou o suporte a esta pesquisa pelo respeito à “ciência”, dizendo ainda que a ciência deve ser isenta de “ideologia” para proporcionar as curas miraculosas para numerosas doenças.

Como profissionais treinados nas ciências da vida nós estamos alarmados com estas colocações.

Em primeiro lugar, suas colocações representam inadequadamente a ciência. Em si mesma, a ciência não é uma política ou um programa político. A ciência é um método sistemático para se desenvolver e testar hipóteses sobre o mundo físico. Não “promete” curas miraculosas com provas inconsistentes. Quando cientistas fazem tais asserções, eles estão agindo individualmente, por suas convicções e esperanças pessoais, e não como a voz da “ciência”. Se tais cientistas permitem que sua crença pessoal no futuro da pesquisa de células tronco embrionárias seja interpretada como uma predição plausível do resultado dessas pesquisas, eles estarão agindo irresponsavelmente.

Em segundo lugar, não é mera “ideologia” preocupar-se com o uso inadequado de seres humanos na pesquisa científica. Os grupos federais de assessoramento em Bioética, servindo tanto a presidentes Democratas ou Republicanos, afirmaram que o embrião humano é uma forma, em desenvolvimento, de vida humana e que merece respeito. Além disso, o senhor mesmo disse que a vida começa na concepção, que a fertilização produz um “ser humano”. Equiparar o interesse desses seres a uma mera “ideologia” é negar toda a história dos esforços para proteger seres humanos da pesquisa abusiva.

Em terceiro lugar, as afirmações que o senhor fez sobre as possíveis aplicações médicas das células-tronco embrionárias vão muito além de qualquer evidência admissível, ignorando o estágio limitado de nosso conhecimento sobre estas células e o avanço em outras áreas de pesquisa que pode tornar o seu uso desnecessário para várias aplicações. Para fazer tais clamores exagerados, no estágio presente de nosso conhecimento, é, não apenas cientificamente irresponsável, - é ainda decepcionante e cruel para milhões de pacientes e suas famílias que esperam desesperadamente por curas e que têm que vir depender da comunidade científica para informações acuradas.

O que a ciência nos diz sobre as células-tronco embrionárias? Os fatos podem ser sintetizados como se segue:

Atualmente, estas células somente podem ser obtidas pela destruição de embriões no estágio de blastocistos (4 a 7 dias de idade). Elas proliferam rapidamente e são extremamente versáteis, e em última análise (no ambiente embrionário) de formar qualquer tipo de célula do corpo humano desenvolvido. Todavia há escassas provas científicas de que as células tronco embrionárias virão a formar tecidos normais em placas de cultura, e que é sabido que a versatilidade dessas células, sabe-se agora, constituem não em uma vantagem mas sim uma desvantagem - as células embrionárias são difíceis de se desenvolverem em uma linha celular estável, pois espontaneamente acumulam anormalidades genéticas em cultura, e são propensas a crescimentos incontroláveis e à formação tumoral quando transplantadas em animais.

Quase 25 anos de pesquisa usando células-tronco embrionárias de ratos produziram indicações limitadas de benefícios clínicos em alguns animais, bem com indicadores de efeitos colaterais sérios e potencialmente letais. Baseado nessa evidência, afirmações de tratamento seguro e confiável de qualquer doença em seres humanos é, na melhor das hipóteses, prematura.

As células-tronco embrionárias obtidas pela destruição de embriões humanos clonados coloca um enfoque ético adicional – que a criação de vidas humanas somente para destruí-las em pesquisa – e que pode colocar, além disso, problemas práticos. O processo de clonagem é agora conhecido como produtor de numerosos problemas de expressão caótica de gens, e isto pode afetar a utilidade e segurança dessas células. Não há prova de que a clonagem virá prevenir toda a rejeição das células-tronco embrionárias, pois mesmo células embrionárias compatíveis de clones são por vezes rejeitadas por hospedeiros animais. Algumas pesquisas animais em clones necessitaram a colocação de embriões clonados em um útero e desenvolvê-los até o estágio fetal, e então destruí-los para que seus tecidos mais desenvolvidos possam produzir um benefício clínico – seguramente uma abordagem que coloca uma questão ética horrível se aplicada a seres humanos.

As células-tronco não embrionárias também receberam cada vez maior atenção científica. Aqui a trajetória tem sido muito diferente daquela dada às células-tronco embrionárias. Ao invés de desenvolver estas células e deduzir que elas em algum dia possam ter um uso clínico, pesquisadores descobriram que elas produziam benefícios clínicos indubitáveis e então procurar uma melhor compreensão de como e porque elas funcionam e então elas podem ser colocadas em usos adicionais. Os transplantes de medula óssea beneficiaram com várias formas de câncer por muitos anos antes que fosse entendido que o ingrediente ativo desses transplantes eram as células tronco. Células-tronco não embrionárias foram descobertas em numerosos tecidos de forma inesperada – no sangue, nervos, gordura, pele, músculo, sangue do cordão umbilical, placenta, mesmo na polpa dentária – e dezenas de estudos indicam que elas são ainda mais versáteis que inicialmente pensado. O uso dessas células não implica em nenhum problema ético sério, e pode evitar todos os problemas de rejeição de tecidos se as células-tronco podem ser obtidas do paciente para uso no próprio paciente. O uso clínico de células-tronco não embrionárias cresceu enormemente nos últimos anos. Em contraste às células tronco embrionárias, as células-tronco adultas estão em protocolos estabelecidos ou experimentais para tratamento de pacientes humanos em várias dezenas de condições, de acordo co o Instituto Nacional de Saúde e o Programa Nacional de Doação de Medula Óssea (Cong. Record, September 9, 2004, páginas H6956-7). Eles foram ou estão sendo acessados em pesquisas em seres humanos para tratamento de lesões da medula espinhal, Doença de Parkinson, acidente vascular cerebral, lesão cardíaca, esclerose múltipla e vários outros. Os resultados dessas pesquisas experimentais nos ajudarão a melhor a entender os prospectos médicos para terapêutica com células-tronco.

No caso de várias condições, avanços provavelmente virão de fontes que qualquer espécie de célula-tronco. Por exemplo, existe um forte consenso científico de que doenças complexas como Alzheimer serão improvavelmente tratadas por qualquer forma de terapêutica por células-tronco. Quando perguntado recentemente porque muita gente acredita que as células tronco embrionárias serão úteis na cura da Doença de Alzheimer , o perito em células tronco do Instituto Nacional de Saúde Ron McKay comentou que “o povo necessita de um conto de fadas” (Washington Post, June 10, 2004, page A3) . Do mesmo modo, as doenças autoimunes como a diabete juvenil, lupus e esclerose múltipla improvavelmente se beneficiarão da simples adição de novas células a não ser que o problema subjacente – um sistema imune defeituoso que ataca as próprias células do corpo com se fossem invasores estranhos – seja corrigido.

Em resumo, as células-tronco embrionárias colocam uma avenida especialmente controversa para o entendimento, para a compreensão e (talvez) algum dia tratar várias doenças degenerativas. Baseado nas evidências disponíveis, ninguém pode predizer com certeza se elas, em alguma época, produzirão benefícios incapazes de serem obtidos por outros meios menos problemáticos do ponto de vista ético.

Por isso, utilizar dessa abordagem em uma campanha política – ainda mais, declarar que ela será uma “prioridade máxima” ou receber qualquer valor de verba federal, independente de evidência futura ou o usual processo científico pareado de revisão – é, sob nosso ponto de vista, irresponsável. É de fato, uma subordinação da ciência à ideologia.

Por causa da política, os interesses da biotecnologia e mesmo alguns cientistas exageraram publicamente a “promessa” de células-tronco embrionárias e a percepção pública desta avenida tornou-se tortuosa e irrealística. Os políticos podem esperar beneficiar-se dessas falsas esperanças para ganhar eleições, sabendo que a colisão dessas esperanças com a realidade virá apenas quando eles vençam suas corridas. As profissões científica e médica não têm tais luxos. Quando pacientes desesperados descobrem que foram submetidos a uma “conversa fiada” ao invés de uma avaliação objetiva e sincera das possibilidades, nós temos razão para temer o recúo público contra a credibilidade de nossas profissões. Nós desejamos ardentemente que o senhor não exacerbe este problema agora, repetindo falsas promessas que explorarão as esperanças dos pacientes para ganho político.


(*) Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense
Coordenador do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina e do Hospital Universitário Antônio Pedro da UFF


Veja o documento em original: LettertoSenatorJohnKerryfrom57cien.pdf




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Ser contra o abortamento provocado de bebês no ventre materno é uma questão ética, já que todos os seres humanos, independentemente da sua idade, ou de qualquer outra condição, têm a mesma dignidade de pessoa humana. É também uma questão científica, visto que há décadas a Ciência afirma que a vida humana começa no momento da concepção, com a primeira célula, o zigoto. É, ainda, uma questão jurídica, uma vez que todo ser humano tem, como o primeiro dos direitos, o direito natural à vida, da concepção até a morte natural. Finalmente, é uma questão também religiosa porque cada um de nós tem, acima de tudo, a dignidade sobrenatural de filho ou filha de Deus.